terça-feira, 16 de junho de 2009

Após a chuva

............Sentada na mesa, ela descascava uma laranja enquanto brincava com os pés pelos braços da cadeira. O cabelo preso, já estava meio solto, desarrumado, e o corpo dentro do surrado vestido florido. O aroma de erva doce dançava no ambiente ao som sibilado da chaleira.
............O clima ainda estava impregnado do frio da madrugada, o qual os primeiros raios mornos de sol se esforçavam para espantar. Olhou para o aro dourado no dedo, logo teria que tirá-lo. Podia escutar a TV da sala ligada, mas sabia que ele não estava prestando atenção, aliás, há muito tempo ele não prestava atenção em nada.
............Na TV, o noticiário mostrava a cobertura sobre uma catástrofe natural em algum outro País, mas ele estava distante. Olhava para a janela, o dia estava ensolarado com cheiro de terra molhada, lembrança da chuva anterior. Gostava de chuva, havia a conhecido assim, num dia de chuva, enquanto ambos se abrigavam em uma lanchonete. Primeiro um olhar desconfiado, depois uma conversa despojada, dois sucos de laranja e toda uma tarde de um sexo bom no apartamento dela. Mas isso havia sido há algum tempo, talvez nem tanto, mas parecia que era uma outra vida e quem sabe fosse mesmo.
............Enquanto servia-se do chá, ela lembrava de como era mais leve, agora sentia que os anos lhe pesaram todos de uma vez, apesar de ser bem jovem ainda. Adorava o cheiro dele após o banho de manhã, mas teria que abrir mão disso. Pensou em tudo que perdeu ou renunciou para viver aquela vida de agora, um gosto amargo apareceu na garganta fazendo seu estômago dar um nó, uma onda de remorso a invadiu. Molhou a nuca na pia da cozinha mesmo, de certa forma estava aliviada, enfim, tudo ia mudar. As malas já estavam arrumadas, dobrou cada peça com uma satisfação incomum, sentia quase um êxtase com esse ritual.
............Três batidas fortes soaram à porta. Ela não precisava olhar para saber que era ele. “Chegou a hora” pensou, suspirando fundo, criando coragem. Dirigiu-se até o quarto para ela própria pegar as malas. No sofá aquele outro par de olhos a acompanhou querendo dizer mil coisas, as quais a boca não permitia, o máximo de ação foi acender o cigarro e se levantar para ir até a porta, parou na metade e não teve audácia para continuar, esperou por ela.
............Eram duas malas, uma preta grande e a outra marrom já velha. Ficaram frente a frente. Apesar de tudo, ela sabia que ainda tinha dignidade e mesmo diante desta situação sabia que o certo era ter a cabeça erguida.
- Então... acho que é assim... – ele disse primeiro, com voz entrecortada.
- Creio que sim. – impaciente, ela queria logo o fim daquilo.
- Bem, só espero que...
- Não, melhor não esperar nada.
............Ela ergueu as malas, que ele pegou com as mãos suadas e abriu a porta. Uma lufada de ar frio veio ao encontro deles, ele se dirigiu para o lado do outro. Ela olhou para os dois homens, um ao lado do outro, sentia uma confusão de sentimentos, dúvida, raiva, nojo. "Inacreditável" pensava. Ele percebeu a hesitação, queria dizer algo, mas ela se antecipou.
- Acho que isso agora é seu – tirando a aliança, colocou-a na mão do amante.
............Sem esperar qualquer adeus, fechou a porta e voltou para seu chá.

Um comentário:

Armindo Kehl disse...

O Fim sempre é duro.